'Úrsula', do Comendador, da abolição e da linguagem

Convidada da APB, analista literária Keila Marta. (S.Luís-MA)

" O Romance Úrsula, demonstra a sua grandiosidade como uma obra precursora quando diz respeito ao conteúdo abolicionista, com todas nuances da literatura europeia, Maria Firmina conseguiu com suas particularidades transitar entre o singelo e o cruel, trazendo os sofrimento dos escravos capturados e vendidos, conseguindo passar na fala da preta Susana o contexto dos negros em terra mãe, muito próximo da sensação passada nas imagens do clipe de Clara Nunes da música 'Morena de Angola'. (...)".

Keila Marta

 

Se referir a Maria Firmina dos Reis, seja em relação as suas obras ou a ela mesma é sempre muito desafiador, pois o que fez para a literatura extrapolou as normas convencionais, diante de uma sociedade ainda escravocrata, onde os homens brancos dominavam, e consequentemente para obter um espaço na literatura era para poucos privilegiados.Mas, no anonimato de uma maranhense, surge Úrsula, um romance delineado por uma delicada linguagem, do primeiro, ao décimo primeiro parágrafo do capítulo um, há uma espécie de louvação a natureza, ao cenário, a fauna dessa parte do Brasil, ao citar nomes de plantas, como carnaubeiras, atalaias, axixás e jatobá. Logo nas primeiras linhas o narrador enaltece “são vastos e belos os nossos campos; porque inundados pelas torrentes do inverno semelham o oceano em bonançosa calma [...] (p.27)

Há um outro detalhe que marca essa primeira parte, a cena onde Tancredo após a aqueda de seu cavalo, num estado de saúde bastante grave é descoberto e ajudado por Túlio, um jovem escravo, com algumas trocas de cordialidade tornam-se depois bons amigos, a ponto do bom cavaleiro dar ao outro a sua liberdade, essa atitude demonstra que mesmo naquele período as pessoas boas tratavam os negros com afeição. Na fala de Túlio há esse reconhecimento: “– homem generoso! Único que soube compreender a amargura do escravo” (p. 44)

Diante de tanto sofrimento, Túlio leva o acidentado para a casa de Úrsula, e logo a moça prontamente presta cuidados ao novo hóspede. E, já acomodado em um leito, o “mancebo” como o narrador se refere, sofre febres altíssimas, entrando em delírios relembra a traição amorosa que sofrera, era Adelaide o motivo de tanta tormenta.

Desse modo, as personagens de Maria Firmina, têm esses perfis porque seguem os ideais românticos. Tancredo é um moço boníssimo, verdadeiro, de caráter ilibado, sabe dar atenção as pessoas com bons modos, e Úrsula é desenhada como virgem, ingênua, capaz de amar com os mais puros sentimentos, ou melhor “ela era tão caridosa... tão bela... e tanta compaixão lhe inspirava o sofrimento alheio e lágrimas de tristeza e de sincero pesar se lhe escaparam dos olhos, negros, formosos e melancólicos”. (p.40)

Com o passar dos dias, Tancredo melhora, mas Úrsula da

sinais de aflição, pois sente no seu peito um nascer de novos sentimentos, pois ouvira túlio falar de amor, palavra desconhecida para ela, então questiona “– o que é o amor?” e dizia para si “ – meu Deus, que é que eu sinto no coração que me enternece?” (p. 43)

Em meio a esse sentimento e com a convicção do quanto estavam apaixonados, Túlio precisava voltar para casa e voltar quando fosse para o casamento. Após a despedida, Úrsula vive então momentos de tormenta, sua mãe Luísa prestes a dar o último suspiro, surge a figura do comendador, seu tio Fernando, uma figura imprevisível, marcado pelo amor e o ódio, começa a encurralar a donzela, que sente no flerte um ar de perigo. (cena no capítulo X)

Os sinais tornam-se mais evidentes, uma carta e por último a sua visita não traz bons sinais, ele cuida de adiantar o que era esperado sobre a vida da pobre senhora. Quando Fernando deixa a casa, Preta Susana foi contar a Úrsula qual era o estado de Luísa, pois era chegada a hora de dizer o último adeus. (cenas do capítulo XI)

A pobre mãe escuta as derradeiras reclamações da filha sobre seu tio e a orienta fugir. Mesmo diante do medo, leva o corpo ao cemitério, são cenas fortes de muito sofrimento e a parte sombria da história toma conta, mas o cavalheiro sente os perigos da sua dama, Tancredo e Túlio vão ao encontro de Úrsula, transpassada de dor, jogada a solidão, que ao ver os jovens encontra forças para fugir. (capítulo XII)

Uma fuga necessária e precipitada, uma vez que o comendador volta da cidade a procura de Úrsula, quase sentido o cheiro dos três retirantes, como um lobo em busca da sua presa, e não a encontrando fica enlouquecido, desesperado, faz uma varredura até o cemitério e mais uma vez não encontra nenhum sinal de Úrsula. (capítulo XVI)

Os três seguem um caminho aparentemente tranquilo, a moça fica em um convento, e Tancredo segue sua vida, planejando casar-se tão logo que fosse possível. Passados alguns dias, chega o tão esperado momento, mas o cerco já está pronto e no meio, Úrsula e Tancredo unem os laços sem a presença do amigo Túlio, ausência esta que representa perigo iminente. (capítulo XVII)

Já na saída, o confronto é inevitável, o escravo livre já morto, numa troca de tiros Tancredo e Fernando ficam frente a frente. E nesse embate, Úrsula ver a vida do seu amado ir embora como um cheiro ao vento, e escuta as últimas batidas de um amor impossível. (capítulo XVII)

Úrsula mais uma vez encontra-se diante da “indesejada das gentes¹”, com isso o sofrimento era tanto que arrebenta com a cortina da lucidez, pois o seu consciente e inconsciente sabem que, se não pode ser desposada por Tancredo, e não tendo a chance de ter um final feliz, é inconcebível que ela passe a ser de outro.

Diante desse mar de melancolia, “Úrsula tinha os olhos cerrados; dormia o sono agitado do febricitante...” e o comendador se desespera pois sabe que fora castigado pelos males cometidos, só lhe resta tentar reencontrar a jovem por quem ele lutou tanto e gritar “– Úrsula!”, “ – Úrsula, em nome do céu, uma só palavra, ainda que seja para amaldiçoar-me...”, no entanto a reposta da jovem não foi do seu agrado.

 

Então ela desvelou os olhos, e pôs-se a contemplá-lo, muda e impassível como se nada a inquietasse, e depois de alguns momentos levantou-se, deu alguns passos vagarosos e incertos, e voltando-se para Fernando, que a seguia com a vista e com o coração, deixou escapar um sorriso descomposto, que o gelou em neve. (p. 177-178)

Ao final Úrsula inerte na sua loucura, apreciando uma última lembrança feliz, o narrador observa que “...depois, tirando dos cabelos uma florzinha murcha e seca, última que lhe restava da capela, beijou-a, e sorriu-se com ternura” (p. 182) e na sua imaginação conversa com o seu amado “ – não vês Tancredo? As flores do nosso noivado! São tão lindas... amo-as!...”, e entre lapsos de dor e delírios Úrsula se despede do mundo.

Portanto Romance Úrsula, demonstra a sua grandiosidade como uma obra precursora quando diz respeito ao conteúdo abolicionista, com todas nuances da literatura europeia, Maria Firmina conseguiu com suas particularidades transitar entre o singelo e o cruel, trazendo os sofrimento dos escravos capturados e vendidos, conseguindo passar na fala da preta Susana o contexto dos negros em terra mãe, muito próximo da sensação passada nas imagens do clipe de Clara Nunes da música “Morena de Angola”. Além do mais as palavras empregadas demonstram a magia da Língua em seus processos diacrônicos, se transforma no decorrer dos anos, mas a obra não perde o seu sentido e o seu valor.

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