A estreia poética de

Albert Mont Blac

Professor, poeta, trovador e cordelista.

Mora em S.Luís-Ma

Nos versos abaixo, a arte de um cordelista contador de boas histórias

Um poeta também lê

E o quer lê não lhe distrai

Se lhe surge a poesia 

Ali mesmo ele cria

Se transforma em samurai

Quando criança contemplava
Encantado com o céu azul
Celeste! Mamãe dizia
Infinito! Completava.

À noite na calçada
Admirava as estrelas
Atento a cada piscada

Três marias, cruzeiro do sul
Tudo me chamava atenção
O pescoço se doia
Deitava-me logo ao chão

Projetava viagens
Sem qualquer direção
E viajava tão longe
E a cabeça sobre as mãos

Meu corpo perdia o peso
Como uma pluma ao vento
Olhando sempre atento
Não me sentindo indefeso

Com o sereno da noite
O frio me dando açoite
Volto pra dentro da casa
Olhando lá da sacada
A imaginação cria asas

Olho feliz de repente
Um risco branco no céu
É uma estrela cadente
Faço um pedido somente

Durmo e sonho voando
Cruzando cidades distantes
Vejo uma torre bem alta
E uma muralha gigante

Passo por sobre o mar
Com velocidade imensa
Cruzo montanhas, florestas
Sentindo emoção intensa

Um relógio num castelo
Me chamou muito atenção
Parei olhei para os sinos
Tentei tocá-los com as mãos

Impedido fui afastado
Por uma força estranha
Depois segui a viagem
De volta pra minha cama

Acordei extasiado
Tomei o café-da-manhã
E um banho bem demorado
Deixou-me revigorado

Brinquei e pulei todo o dia
Nem me lembrava do sonho
Mas quando a noite chegou
Senti um medo medonho

Não conseguia dormir
Nem os olhos fechar
Meu corpo todo tremia
Sentindo uma grande agonia
Pedi a Deus me ajudar

Senti alguém me tocando
Dizendo "Estou aqui"
Meu corpo foi relaxando
Até conseguir dormir

Não lembro o que sonhei
Dormi sem me espantar
Na manhã quando acordei
Sentei e queria chorar

Ainda sentia no peito
O toque daquela mão
Toque suave e perfeito
Acalmou meu coração

Sua voz eternecida
Acalentou minha mente
Agora sorria contente
E a alma embevecida

Corri pro chuveiro banhar
Sentindo uma grande levesa
Como se fosse flutuar
Vivi, eu tinha certeza

Passei o dia pensando
Naquela voz calmante
As horas iam passando
E eu ficando impaciente

À noite chegou demorada
Queria o amigo encontrar
Ancioso fui cedo dormir
Mas ele não veio falar

Chorei desconsolado
Pedi que voltasse a me ver
Prometi ser obediente
"Quero falar com você"

Noite após noite implorei
Ajoelhado ao chão
"Por favor volte pra mim
Alivie o meu coração"

Um dia brincando na rua
Um carro descia veloz
"Vá pra calçada agora"
Ouvi novamente a voz

Corri obediente
Sem esperar o porquê
Um freio ouvi de repente
Foi bom obedecer

Um carro desgovernado
Quase por me bater
Passou me deixando assustado
Consegui sobreviver

 

O carro bateu em um muro
Deixando tudo quebrado
O motorista ferido
Foi rápido resgatado


Vizinhos pediram socorro
Uma ambulância surgiu
Fiquei pensando na voz
Do jeito que veio sumiu


Passado todo o sufoco
Pus-me então a pensar
Vi um homem machucado

Quase fui atropelado

E ouvi meu amigo falar

Fui pra casa feliz
Contei o acontecido

Mamãe quase desmaia
Chorou e brigou comigo

 

Mas um abraço selou
O meu amor inocente
Com beijos pra todo lado
Mamãe estava contente


Falei quem me alertou
Mamãe acendeu uma vela
E três ladainhas rezou


Rezou pro anjo-da- guarda
Pra ele agradeceu
Fez mais de mil promessas
Mas o motorista morreu


Uma tristeza se abateu
O moço era de bem
Deixou uma familia
E aos seus pais também


Fiquei impressionado
A morte não conhecia
Viver parece errado
Pra ter que morrer um dia


A noite deitei na sacada
Olhando para as estrelas
Fiquei ouvindo a freiada
E o medo voltou com elas


Chorei sem dor de nada
Só sofrimento e apatia
Saí la da sacada
Temendo o que me angustia


A morte é sem sentido
Então, pra quê viver?
Se os dias estão contados
Se todos estão condenados
O que podemos fazer?

Na cama fiquei encolhido
Querendo tentar entender
A vida tem só um destino
A morte pra mim e você


Dormi um sono abalado
Rolando pra lá e pra cá
Vi gigantes me agarrando
Dragões com eles brigando
Querendo me almoçar


Acordei gritando assustado
Mamãe foi logo me ver
Beijou-me e dei-lhe um abraço
Dormiu ali ao meu lado


De manhã durante o café
Contei o sonho macabro
Achei que era falta de fé
Ouvi meu "amigo" dizer
"Estarei sempre ao teu lado"


Quem é você? De pé perguntei.
Não veio nenhuma resposta
Senti sua presença e sentei
Tocou-me na minha costa


Virei-me e nada havia ali
E no vazio de súbito
"Sou Sua Luz, estou aqui
Sossegue, não irei mais sumir"


Chorei de felicidade
Gritei "meu amigo voltou
Eu o vi de verdade
Com Sua Luz multicor"


Vestia um vestido dourado
Que lhe cobria os pés
Então perguntei o seu nome
Preciso saber quem tu és


"Sou Sua Luz, Eu já disse
Me chame que irei atender."
Todo mundo tem um nome
Você também deve ter.


"Estarei sempre ao teu lado

Na alegria e na aflição
Embora tu não me vejas
Moro no teu coração"


O meu coração é teu lar?!

"Sim. No coração da tua Alma
Vivo pra te agradar."


Eu posso fazer-te um pedido?
Um pequenino assim?
Fique aqui fora. Não volte.
Não saia de perto de mim.

 

"Nunca saí do teu lado
E nunca irei te deixar
Sou Tua Luz, teu cajado
És Tu que Me faz brilhar."


Então, Tu És as estrelas!
De todo o firmamento!
"Eu Sou todas elas
E Sou este momento".


Tu és Deus o Nosso Pai?
E moras no meu coração?!
"Eu Sou o Leite que derrama
Sobre toda a criação."


"Estou em toda criança
No céu, no Sol e no mar
Em todo ser sem esperança
Ali encontro meu lar."


"Meu júbilo é unicamente viver
Pra realizar os desejos
Que não prejudiquem a você
Senhor da Luz é você


Meu amigo e meu irmão
Em mim fizeste morada
Dentro do meu coração.

(Albert Mont Blanc)

Senhores

da Luz

Confissões de um poeta

Se o amor lhe foi embora
Cria um verso bem ligeiro
O poeta também chora
Pra não perder o roteiro

De fantasma não se assombra
É capaz de conversar
Declama um verso de lombra

Convida o fantasma a dançar

Sou poeta, cordelista, trovador
Faço versos que rimam
Inspirados pelo amor
Tropeço nas palavras
Escorrego na criação
Mas no final dá tudo certo
Conto estórias do sertão

Do Drama ao terror
Tudo o poeta sente 
As vezes fala a verdade
As vezes o poeta mente

De uma conversa alheia
Pensa logo em poesia
Praça, mar, céu ou areia
De tudo o poeta cria

Se vê um casal brigando
Dá um grande dramalhão
Se vê um casal se amando
Cria uma linda canção

Mas cuidado, não se engane
O que vem da sua mente
As vezes o poeta cria
As vezes o poeta sente

Sente a dor de um passarinho
Sente o vento lhe falar
Tem roseiras sem espinho
Faz até um boi cantar

Contudo, não se incomode
Com sua fértil imaginação
O poeta pode ser bode
Um cavalo ou gavião

A dor que lhe atinge
E a grande multidão
As vezes o poeta sofre
As vezes o poeta finge

O poeta é um circo
Com toda a sua beleza
Tem palhaço e tem mico
Tem pipoca com certeza

Escreve versos sem vergonha
Só pensando em sua arte
As vezes o poeta vive
As vezes o poeta sonha

Escala belas montanhas
Diz que foi ao Evereste
Muda até seu idioma
Diz que é cabra da peste

Até de um pingo d'água
O poeta já criou
Criou versos sem mágoa
Pra mandar ao seu amor

Poeta pode ser tudo
Um cego, surdo e mudo
Ou pesadelo do mal
Moribundo morrendo de fome
Poeta empresta o seu nome
Na capa da obra final

Um feiticeiro de aldeia
Finge até ser bom de cama
As vezes o poeta odeia
As vezes o poeta ama

Um poeta também lê
E o quer lê não lhe distrai
Se lhe surge a poesia 
Ali mesmo ele cria
Se transforma em samurai

Vive amores mundanos 
Impuros sem permissão
Pecado se torna luxo
E luxuria distração

Poesia não vem pronta
Vai surgindo devagar
As vezes o poeta toma
As vezes o poeta dá

Confusão é uma sina
Rima com destruição
As vezes o poeta rima
As vezes o poeta não 

O amor vira luxúria
E a luxúria vira paixão
As vezes cria injúria
E as vezes compaixão

Se o céu é estrelado
Uma poesia lhe urge
Torna o papel rabiscado


Ali o poeta surge

De uma risada infantil
Ou uma pelada de rua
Lhe surge um verso gentil
Ali o poeta atua

Tem papagaios de linhas
Emborcando até a mão
O poeta joga bolinhas
Com borrocas pelo chão

Das quebradeiras de côco
Do famoso babaçu
O poeta cria um pouco
Na torta do sururú

Até nos bondes de outrora
O poeta já versou
Sentado no banco sem mola
Levado pelo condutor

Na praça Gonçalves Dias
Olhando pra beira mar
Brincam crianças sadias
Pro poeta se encantar

Em pinturas de aquarelas
Barcos deslizam o mar
Suas coloridas velas
Fazem o poeta chorar

Se o amor lhe foi embora
Cria um verso bem ligeiro
O poeta também chora
Pra não perder o roteiro

De fantasma não se assombra
É capaz de conversar
Declama um verso de lombra

Convida o fantasma a dançar

De mulher perdeu as contas
Dos versos que já criou
De fogosas a faceiras
Por todas o poeta amou

Essa peça tá comprida
Já é hora de encerrar
Poesia a fonte da vida
Poeta a ponte sobre o mar

Tem toda sorte do mundo
Bebe tudo, toma um porre
As vezes se faz eterno
As vezes o poeta morre

(Albert Mont Blanc)

A arte de Contar Histórias

(*) Mhario Lincoln

Na verdade, Albert Mont Blanc sabe como ninguém contar histórias. Seus versos, no fundo, são longas jornadas que saem de seu interior para percorrer sempre algo que lhe tocou durante a vida, até aqui!

Há uma necessidade clara de conhecer com mais profundidade os segredos da metamorfose lírica, embutida também nos segredos da própria alma. Desvendar o mistério Vida/Morte. É (dos versos que li) quase uma constante.

A aproximação com construções espíritas lhe acabam levando ao Universo (às vezes, só dele), em delírios hipnóticos de clarividência de tal monta, que chega a conversar com seres iluminados, bem à propósito, das intrigantes construções também cordelistas, das lidas e enfrentamentos constantes dos homens com figuras do imaginário popular.

Todavia, no caso de Albert, há mais realismo. Encorpa, por exemplo, casos de avivamento espiritual, ritos e Fé.

São quase dogmas que acabam compondo seu senso crítico de versar.

De versar sobre o Universo, sobre Anjos de Luz, Anjos da guarda da infância, misturando-o à realidade de famílias normais. Isso fica bem claro quando ele versa sobre seu livramento de um acidente: " 

E ouvi meu amigo falar

Fui pra casa feliz
Contei o acontecido

Mamãe quase desmaia
Chorou e brigou comigo
..."

Às vezes juntar o imaginário e trazê-lo de volta à realidade, num período equivalente a 8 quadras, numa construção vertical, é difícil.

Mas Albert Mont Blanc, no fundo, caracteriza-se por ter uma habilidade fértil em descrever e contar histórias de sua forma e maneira.

Não há comparação à construções cordelistas outras. Acho que cada um artista tem uma forma digital de escrever e pensar. Assim é Albert.

Pensa e escreve a sua forma, a sua maneira, ao seu estilo.

Considero-o, então, um bom contador de histórias. Que ele não pare de produzir. Que volte urgente ao Facebook. Na verdade, o que vale é o sentimento pessoal de quem lê. Seja um, dois ou três.

Volta sempre!  

Sede: Curitiba - Paraná

Envie seus trabalhos para mhariolincolnfs@gmail.com