RITUAL

Todas as tardes
rego as plantas da casa.
Peço perdão às árvores
pelo papel em que planto
palavras de pedra
regadas de pranto.

8 DE MARÇO, DIA DA MULHER E POESIA

Três Poetas Mulheres

Especial: Luis Augusto Cassas

GEOGRAFIA PROVINCIANA

Manaus um ponto perdido
no mapa. Ali, desgarrada
entre paredes de verde.
Mas iam e vinham navios
trazendo franjas do mundo.
Europa e Península Ibérica
surgiam das próprias pedras
das avenidas e esquinas:

a Itália na taberna
de seu Vincenzo Arenaro.
Também no livro de Dante
que o sapateiro traduzia
rodeado de crianças
a mostrar-lhes céus e infernos
toda a celeste geografia.

Seu Genaro, já grisalho
fundava o reino de Espanha
atrás de barris de vinho
tinas mantas de banha
vinagres azeites doces
réstias de alho e cebola.

Seu Carvalho, o português
vendia bolos e broas
à vontade do freguês
mais rala-rala e refrescos
de guaraná e groselha.

Síria China e Argentina
vinham na gorda maleta
do turco mais seus bigodes:
damascos crepes Chambleys

A França era ali na Madame
Marie e no Aux Cent Mille Paletots
a moda do dernier cri.

E passavam barbadianas
sob chapelões de palha
aos sol dos dias em brasa.
E um fugitivo das Guianas
testemunhava a Ilha do Diabo!

O mundo estava em Manaus
Manaus estava no mundo.

Astrid Cabral

Amor no píer

Confesso: o amor por ti
não atravessou o mar.
Só molhou as pernas na espuma
e temendo vagas, dunas
não quis cavalgar o vento.

Confesso: o amor por ti
deixou-se ficar no píer
sem percorrer ponte alguma.
Acenavas terra ao longe
a ventura de outra margem.

Meu amor ficou no meio
refém do medo de risco.
Queria apenas passeio
a bordo escuna sem lastro.
Nunca a viagem de fato.

O ANJO BOM

Entre montanhas de roupas
e colinhas-pilhas de louça
afogava-se nas águas
de pias, tanques, baldes
e mágoas represadas.
E perseguia a poeira
e a fome num desvelo
que era novelo sem fim
desenrolando-lhe os dias.
Onipresente, mas tão muda
que se fazia invisível,
era o anjo bom do lar
- exilada sem asas – 
no chão do seu inferno.

MOVIMENTO EM VENEZA

Nenhum avião, nenhuma gôndola
me leva a esta visão de Veneza.
Apenas a janelinhas luminosa
dando para a foto de uma urbe anfíbia:
a escadaria de pedra ladeando
o balaústre à beira d’ água.
É noite e um jardim de lampiões
a florescer na bruma mitiga
o negrume das trevas empilhadas.
Há noites nítidas, irmãs do dia.
Não esta que se assemelha ao sonho:

ambígua passarela de transeuntes
sobre um canal penumbra e neblina.
Aonde vão esses seres sóbrios
embrulhados em lãs e cuidados:
a mulher de bebê ao colo
o jovem carregando um saco?
Longe torres, campanários, cúpulas
remetem a transcendentes alturas
e imantam a mola que os homens
move adiante, por territórios de terra 
e água, rumo à vida, rumo à morte.

O inferno pós-morte
não me assusta.
Este sim. Tão perto
que já me chamusca.

Adeus antigo chão.
Não mais a hortelã das hortas..
nem o aroma dos quintais
comemorando as manhãs
moribundas em gavetas
- prematuras e pressagas –
as pessoas implumes
por entre grades de aço
relanceiam os céus
órgãos de pássaros.

Atrás das moitas
o inimigo amola
molares e facas.
Bendito o inimigo
que investe de perto
caninos às claras.
Talvez possua
a verdade sobre nós
esse espelho feroz
tão necessário
a nossa cara.Ele?

estrangulou-se
com o nó da gravata.
Ela: deixou-se pender
no cinto do vestido.
Algemados e sem lima
não transcenderam
muros nem arames.
Por eles enredados 
não se salvaram.

DEGRAUS  NO INFERNO

A alma faz ginástica

na academia do mundo.
Precisa melhorar a curva
postura, com que magra
se apossa do espaço côncavo.
Por tantas vezes ferida
paciente com as mágoas
que se repetem tais ondas
repousa nas pausas parcas
da dor que sempre a ronda.
Sorte a alma ser elástica
a se encolher de fininho
humilde bicho acuado
a se espichar infinita
feita lobo ou cão danado
em tanta louca procura.
Na academia do mundo
malha e meias coloridas
a alma bem se exercita.

Sonhar o ritual do amor

em leito de violetas.
Acordar entre lençóis
manchados de genciana.

Faquir não sou
mas quantas vezes
(fôlego de gato!)
não como fogo
ou me revolvo
em chão de pregos
num show secreto?

Cruel ave de rapina
o enigma me bica
a carniça da alma.

Não mais ser feliz.
Deixar a ferida
virar cicatriz.

Extraí de mim o sonho
como quem a frio extrai
um malfadado dente.
No presente alivio
a fratura do sorriso.

Longínquo céu
Vã tentativa
de levantar-lhe o véu.

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