Especial Sonia Palma

Buscando uma forma de honrar minha cadeira na Academia Poética Brasileira, representando-a da melhor forma possível aqui na Inglaterra, dei início à realização de um projeto de apresentação de escritores brasileiros que vivem na Europa.

Meu trabalho pretende dar visibilidade a pessoas que muitas vezes são totalmente desconhecidas das mídias no Brasil, apesar de muitos serem conhecidos por aí.

Pretendo apresentar um escritor por mês, se as atribulações do meu dia a dia permitirem.

O projeto foi batizado como: "Escritas fora-do-lugar: a diáspora da escrita brasileira na Europa". Para esse projeto, a intenção é apresentar escritores brasileiros que vivem na Europa.

Para iniciar, apresentarei Natan Barreto, um escritor-poeta e artista que gostei muito de conhecer.

NE: Minha amiga, Consulesa Poética da APB. São iniciativas como essa que vão ao encontro do verdadeiro objetivo da Academia Poética Brasileira: A divulgação efusiva de poetas, artistas e músicos, nacionais ou estrangeiros, tão bons quanto os que a mídia divulga. Seja bem-vinda Sonia Palma. Sempre!

O olhar já nos adianta toda sensibilidade contida em seus poemas... 
Natan Barreto é um dos milhares de brasileiros que vivem na Inglaterra, porém, há um ponto onde ele se destaca: sua arte, a escrita. Baiano de Salvador, nascido em 1966, viveu em Roma, em Paris e, desde 1992 vive em Londres. Formou-se em Interpretação Teatral pela UniRio, é tradutor e intérprete formado pelo Institute of Linguists, e professor primário pela London South Bank University. Há uma vasta biografia que o apresenta mais detalhadamente em seu website: http://www.natanbarreto.com/, para onde dou os créditos de grande parte das informações aqui contidas. Neste artigo o apresentaremos mais rapidamente, a fim de que saibam um pouco sobre a poesia brasileira existente em terras distantes. 
A escrita de Natan Barreto permeia sua própria existência, uma vez que produz seu trabalho capturando suas experiências, coisas vistas, vividas e imaginadas, dando a elas vida própria por meio da palavra.

Deslocado geograficamente de sua terra natal, suas origens, muitos de seus escritos traduzem a nostalgia, as dores do isolamento, as lembranças, as experiências de ser imigrante, de falar e viver em língua estrangeira. Desta forma, por meio da escrita Natan Barreto reinventa vida, lança, aos olhos de outrem, realidades possíveis.

Em sua bibliografia constam os livros de poesia: Sob os telhados da noite (1999),   Esconderijos em papéis (2007) e Movimento imóvel (2016), que recebeu uma Menção Honrosa pela União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro; Quase-sonhos & Traduzido da noite (2009), uma edição bilíngue – francês/português – dos poemas de Jean-Joseph Rabearivelo, escritor de Madagascar; e a biografia Entre mangueiras: a vida de Eunice Palma (2011).

Encontros Poéticos, foi um projeto realizado em Londres durante alguns anos, coordenado pelo poeta. O projeto apresentava a vida e a obra de escritores brasileiros na embaixada do Brasil, no museu de Londres, nas universidades de Queen Mary e Nottingham, e no Royal Court Theatre. Em 2011, recebeu o prêmio International Press Awards UK, na categoria Literatura. E, em 2017, seu livro Um quintal e outros cantos venceu o II Prêmio Sosígenes Costa de Poesia, concedido pela Academia de Letras de Ilhéus.

Sua poesia também faz parte de uma antologia bilíngue, que reúne seis poetas brasileiros residentes no estrangeiro, Poets adrift: first anthology of Brazilian diaspora poetry/ Poetas à deriva: primeira antologia da poesia da diáspora brasileira (2013).

Em agosto, lançará Bichos, um livro que reúne 83 quadras sobre animais e que foi todo ilustrado por alunos da Escola Modelo Eunice Palma, instituição fundada por sua mãe em 1959, no subúrbio de Periperi, em Salvador.
Abaixo, um poema de sua autoria, inspirado no quadro Lavadeiras (1937), de Candido Portinari.

No fundo do pano

Natan Barreto


Nas trouxas nas cabeças dessas moças
há roupas sujas que vestiram outras
em seus passeios, jantares e festas –
suor, perfume, no fundo do pano.

No pano que elas vestem, essas moças,
entra o suor (seu perfume agridoce),
pérolas transparentes que o permeiam,
molhando em amargo o raso dos vestidos.

 

São tristes os vestidos dessas moças –
nenhuma flor, nem mesmo murcha, ou folha,
nenhuma cor de pétala no claro –
alvo lavado por suas mãos tão limpas.

 

Nas mãos ainda meninas dessas moças,
brincar é força de dedos que doem,
que esfregam cegos qualquer encardido
e espremem a espuma quando a água enxágua.

 

Seguindo os pés descalços dessas moças
se chega a beiras, lagos escondidos,
onde se afoga o fundo frio do pano
das roupas sujas que vestiram outras.

NATAN BARRETO 

Um pouco de Sonia Palma

Brasileira, Sonia Palma é, antes de tudo, mãe de três filhos maravilhosos, pelos quais aprendeu a arte do mais puro amor. Vive em Nuneaton, Condado de Warwickshire, interior da Inglaterra, onde se dedica às coisas que gosta de fazer: escrever seus livros e poesias, viajar e cozinhar.

Esboço de mim

– Alinhavo –

 

Sou realidade,
mulher de erros e acertos.
Sou possível,
mulher em busca de ser, de fazer acontecer.
Na multiplicidade, sou única,
diferente.
Mas, minha trajetória tem um fio condutor
que me une à vida de várias outras mulheres.
E assim vou alinhavando as horas e os dias,
alinhavando vida.
Sou ainda um esboço de mim mesma,
mas minhas escolhas me fazem e me refazem
e, com elas, assino minha própria história.

 

Sônia Palma, Nuneaton (Inglaterra)

“Esboço de mim” é um alinhavo humano, de afinidades e emoções, em que o eu lírico se sintoniza com a percepção de si, enquanto mulher, esbarrando-se nas escolhas e no desejo, na certeza de que a liberdade lhe permitirá “fazer e refazer” até que fique a seu gosto, sem a necessidade de se dar por obra acabada, imutável. Para Rosiska Darcy de Oliveira (1991, p. 18), “O movimento de mulheres foi – é – […] essa corda em que subimos para provar que, ao alcance da mão, se oferece a nós um mundo mais terno, mais suave”. Desse modo, pode-se entender o “ser alinhavado” como sendo um ser aberto a mudanças, em busca do melhor, ciente de que cada qual é apenas “um esboço de” si, na composição de sua “própria história”.

(Ivone Gomes de Assis)

Sede: Curitiba - Paraná

Envie seus trabalhos para mhariolincolnfs@gmail.com