Iolanda Costa

8 DE MARÇO, DIA DA MULHER E POESIA

Três Poetas Mulheres

Especial: Luis Augusto Cassas

Colar de Absinto, Lumme Editor, 2017

imenso e excessivo deus que não se escreve, desses
que não intermediam o voo às longas asas
ou complementam a tela, a rara flor.

trazemos nos dedos, no decalco do continente
e sua cartografia de oceanos
e não o alcançamos.

invocamos no rito, no lecionário
na frase em sânscrito bem pronunciada
e não o traduzimos.

anticosmogônico imenso e excessivo, desses 
que se esgueiram de palavra e genuflexão
e a tudo frena.

INVERSO


NIETZSCHIANO

a criança girando por si
não salva o homem, chancela
o inventor à escuta do inaudito

desfeito de Absoluto, o mundo
findo, convulso de flor, dissolvido
na carnalidade hastes

nega o dogma, o amparo
a crença poída não encenada
o nada tustro de nadas

o homem devotado do homem
não cabe em si, expande-se
como um leão extraído do camelo

SCIOTHERICON

os corpos celestes
são como bolas de fogo
no céu

todo o Cosmo
sobro e ar o mantêm

o dia não é mais
que a sombra alada da luz
a hora medida de éolos

hipotálamo lumiada
da antera (roxa flor)
da pneuma rarefeita

relógio de sol floema
cujas mamas feito antenas
(fulcras de falenas silfas)
são bússolas

XAMÃ

Citrin é um velho xamã
que vive na Califórnia.
Ele é aturdido.
Ele escuta vozes.
Ele faz temazcal
como um guarani.

O bruxo, como a bruma
busca a luz, o fogo
a pedra ardida no meio da tenda
- seu inipe de copal e alcaçuz
sálvia e cedro
suando-lhe as evocações.

Seu chapéu é de um feltro
preto encorpado de abas longas.
As vozes violam as abas
a turba o nervo o estribo o labirinto
de seu ouvido sobre o mundo
do zumbido do mundo em seu ouvido
do mundo zunido sob a aba.

SENSORIAL

 

 

 

No caderno de desenhos
teu poema gira
em ovas-nous inverso:

nada se opõe aos sentidos.

O peixe de escama e guelras
barbatana a página.

A embaúba de tronco oco
prateia do verde a sua folha.

A andrômeda ôntica
nébula de leite a Criação.

Enteléquia aristotélica:
hélio travestido de galáxia.

ORIGEM

supra sensível, um demiurgo
vestido de cosseno na cabeça 
é uma menina espessa no espelho

não ordena o caos
- caótica cósmica
por cossenos

o Ser é extraído das Formas
e não há paralelogramo
que o pressuponha

nua, a fenda-lua
alinha, da caverna de sombra
o seu grafema de sol

NÚMERO

A matéria decifrada por inteiro
e em fracionária proporção.

Diz-me se é possível
combinar dos avessos
a alma ressudada dos corpos

a cítara muda do teu sete
reverberado de lira

a medida de todas as coisas
pela carne ressurgida.

Estar no mundo e não
Caber-se, íntimo
matemática em soma
alterada de conversos.

HIPÁTIA

As bruxas fazem ciência e vaticinam.
Seus óvulos trópicos esperam
a terra adorada, a que não vem
o ventre invertido que não gera.
Vertem seus mênstruos a cada lua
e buscam a si como oroboros
loucos e dissidentes.
“Toda quintessência é uma pedra
Que não é pedra”, dizia Maria
(a de Alexandria)
A que calcinava enxofre e cobre.

KANT

Tempo e espaço
não me serão úteis.

Aqui dentro tão quase
mais que perfeita, inútil
mais que urdida, têxtil
insurjo dos fios a linha drama.

Transcendental a posteriori
consumada de fenômeno;

sensório-númeno corpo fatigado
dobado em trama torva.

DEUS, OU A NATUREZA
Espinosa

Quando mônadas abrirem 
suas portas e janelas
o deus-sol coroado de rama
vicejerá a folha espalmada
da urtiga, a tênue flor
exalada de matéria.
E o divino habitará entre nós.

Sede: Curitiba - Paraná

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