QUEM HÁ DE?

(ou) da transcendência e da imortalidade

(*) Mhario Lincoln

 

Em 1982 Participei de uma palestra sobre Olavo Bilac com professores de Português e Literatura, da Universidade Federal do Maranhão – UFMA e na minha rápida interferência lembrei um excerto de Bilac no seu ‘Alma Inquieta’. Assim me expressei:

“[ ‘Quando a primeira vez a harmonia secreta/ De uma lira acordou, gemendo, a terra inteira, / - Dentro do coração do primeiro poeta/ Desabrochou a flor da lágrima primeira (...)”.

Esse é Olavo Bilac, o príncipe dos poetas brasileiros. Clássico em seus versos, perfeito em seus delírios líricos, grandioso em sua performance ortográfica ]”.

Pois bem! Vários anos depois – (ou) - ainda há pouco, tipo 10.35 da manhã deste 02.08.2018, eis que o porteiro me bate à porta e me presenteia com dois magníficos livros escritos por Leopercio Turello.

Ansioso – isso eu faço sempre que recebo mimos como esse – abri o pacote devidamente composto dentro das normas da ECT (ou Correios) e, em cima, bem em cima, como um ‘insight’ espontâneo, o livro de sonetos ‘Estrelas Cadentes’.

No que eu o abri, aleatoriamente, me deparo com MENINA BONITA:

“ Tu vens caminhar, nessa estrada da vida, bendita...”. Veja a harmonia e a quantidade de letras alocadas num ritmo perfeito. Tomei um susto de felicidade. Finalmente voltava a ler um poeta clássico, com construção deliciosa e harmônica:

“ Tu vens caminhar, nessa estrada da vida, bendita,

Que nos conduz, sem cessar, nos momentos de glórias,

Onde nos deparamos, alegres, ante as vitórias,

Ao trazer, nos cabelos, amarrado, um laço de fita!!! (...)”.

 

Leiam e vejam que construção lírica deliciosamente perfeita. Leiam como o poeta Leopercio Turello consegue brincar com os apostos explicativos, até para fortalecer a simbologia da construção. Mas de forma clássica, impermeável aos vícios de linguagem e de prosódia.

É realmente incrível se ler construção pertinente, confesso. A arte de fazer poesia (ou de colher poesia na sincronização dos ruídos cósmicos), ou como diz o poeta João Batista do Lago, ‘...a poesia é, está pronta, basta atraí-la ao consciente cognitivo...”, traz algo de muito novo ao classismo produtivo de Turello. Enriquece o lírico dos versos dele no momento em de externar algo pessoal e quase intransferível, em outras formas de linguagem.

Nota-se claramente como ele conseguiu assimilar (de certo modo, claro) a perda de ente queridos, através dessas construções de amor, ternura e saudade. Mas dentro dessa conscientização cognitiva (e outras), pela ação e reação.

Do mesmo jeito que Ferreira Gullar olhava o milagre poético:

“Pretendo que a poesia tenha a virtude de, em meio ao sofrimento e o desamparo, acender uma luz qualquer, uma luz que não nos é dada, que não desce dos céus, mas que nasce das mãos e do espírito dos homens...”. (‘Toda Poesia’, de Ferreira Gullar).

Bem isso, pois a poética de Leopercio Turello é encantadora, a partir do momento do crescer. É onde se dá conta da coexistência da ambígua lei entre a Morte (???) e a Vida, ambas analisadas por padrões acima das leis naturais, mas fortificando-se diante do ‘pós-factum inativus’, ou do ‘post morto’.

Voltando a Gullar: "É da própria natureza da arte romper os limites da solidão”. Desta forma, ler Leopercio Turello é se enriquecer de grandioso exemplo de ‘... ir mais adiante, pois logo seremos todos novamente’, como nos ensinam as energias em transição permanente.Porém, ainda fica latente a saudade, o carinho, o amor, indissolúveis, neste ‘Estrelas Cadentes’ do poeta-autor com seu aconchego-vida.

Sonetista LEOPERCIO TURELLO. (Maringá-Paraná)

NOSSA COROA

(*) Leopercio Turello

 

Há quem diga que a vida é realmente bela,

E jamais poderemos isso contradizer,

Porque são inúmeras, a nós, as janelas

Que se nos abrem a cada amanhecer!!!

Ao observar, todos os dias, a natureza em festa

As flores a desabrocharem, o canto dos passarinhos,

Começamos, então, a pensar em que nos resta,

Para poder aproveitar, dos amigos, o carinho!!!

E quando, enfim, dermos nosso derradeiro alento,

Esses amigos do coração tenham-nos no pensamento,

e em nosso sacrossanto velório seja sem velas...

Poderão nos enfeitar, em derredor, com flores

e nos corações, cultivarem muitos amores,

E a nossa coroa seja... de borboletas amarelas

O mesmo Gullar nos ensina que enquanto falamos dos outros, em nossas poesias, tudo acontece. Porém, urge exaurir a catarse, ou fazer os versos trombetearem aos quatro ventos, ratificando o ‘poeta-ser-forte’, mesmo com dores internas, porém, sem nunca perder a ternura.

Leopercio Turello faz exatamente isso:

“ Amada minha! Tu que habitas outra esfera,

Que segues no trabalho por outra trilha,

Partistes para encontrar, de novo, a filha,

Vai com paciência, fica a minha espera!!!

(...)

“Como aguentar esta espera e tanta demora,

Enquanto meu coração saudoso chora!

Somente quem sofre o mesmo é quem vê...

 

E todos os que passaram por esta sorte,

Encarar, da companheira, da filha, a morte,

E ainda dizer que não chora”! ‘Quem há de?’”

 

Esse soneto (onde suprimi o segundo quarteto) é, na verdade, um indelével sentimento transformado na poesia “Dizer que não chora”, num desabafo pertinente aos poetas que amam verdadeiramente.

Por essas construções líricas, quase êxtase romântica, é que o livro “Estrelas Cadentes”, de Leopercio Turello interage diretamente com algumas das mais autênticas representações dos clássicos-românticos, indo ao encontro de insofismáveis pedreiros de catedrais poéticas: Olavo Bilac, Castro Alves, Casimiro de Abreu, Laurindo Rabelo, Junqueira Freire, Fagundes Varela e Bernardo Guimarães.

Ao ler e me emocionar com cada verso desta obra, concluo que, ao contrário da construção poética de Junqueira Freire, (“Pesa-me a vida já. Força de bronze/ Os desmaiados braços me pendura. / Ah! Já não pode o espírito cansado/ Sustentar a matéria. (...)”, Leopercio Turello, em muitas ocasiões, ao compor – como um aedo – suas líricas, transcende para atingir, nos píncaros da razão e da sensibilidade, o grau de espírito em evolução, no quase-infinito conhecimento e intangibilidade. Por isso, o espírito dele nunca se cansará ao sustentar essa elogiável matéria poética.”

 

Parabéns,

Senti-me muito à vontade lendo esta obra.

Curitiba-PR, 03/08/2018

 

Mhario Lincoln

Presidente da Academia Poética Brasileira

Sede: Curitiba - Paraná

Envie seus trabalhos para mhariolincolnfs@gmail.com