28 de dezembro de 2008. De repente, me pego em conjecturas. A proximidade do final de ano me faz repensar situações vivenciadas.

Como sempre, meio alucinado por tudo que é vivido neste mundo maluco, mundo do qual participo e, portanto, sou tão maluco quanto, me flagro ainda com um pouco de sanidade.

Tal sentimento me faz conversar com Cecília Meireles, minha conterrânea e contemporânea, pois, nasceu no mesmo país, estado, cidade e bairro que eu, e porque se deu ao mundo, no primeiro ano do mesmo século em que eu, me fiz aparecer quarenta e quatro janeiros depois.

Ela já não mais corporalmente aqui. Eu, Humano, fisicamente, sim, presente, porém psíquica; espiritual; emocional; poética; consciente e a princípio, inconscientemente, não mais tão habitante material, desta materialidade superficial, que se transformou numa efeméride tão efêmera quanto distante da perenidade do 'Ser'.

Cecília me recorda em parte do 'Romanceiro Da Inconfidência' que sou alguém muito próximo dum romanceiro e muito distante dum inconfidente. Não sei se no primeiro caso por idealismo absoluto, e no segundo, por covardia não assumida. No primeiro, escrevo poética e romanticamente, no segundo, sei que há muito deixou de existir número suficiente de gente para uma inconfidência. Os poucos amigos que se identificam em ideais, se dão apenas às confidências.

A falta de liberdade existencial leva a aceitação da mesmice tácita.

Diz-me Cecília:

 

 

- Deve existir nos homens um sentimento profundo que corresponde a essa palavra liberdade. Sobre ela se tem escrito poemas e hinos, a ela se tem levantado estátuas, monumentos, por ela se tem morrido com alegria e felicidade.

Contestei:

- Isso no seu tempo, querida amiga. Agora, as pessoas deixaram de ter sentimentos. Nem profundos, nem rasos. A palavra liberdade, tem apenas o sentido de feriado. Poemas que hoje os poucos poetas remanescentes escrevem, tratam quase sempre do caos existencial. Hinos, nem de louvor ou pátrio são conhecidos, quiçá poéticos. Estátuas e monumentos são depredados e pichados por vândalos incultos e raivosos. Quando você escreveu "por ela se tem morrido com alegria e felicidade", se referindo a liberdade, me arrepiei ainda muito jovem, porque antevia o que hoje acontece.

As heroicas mortes de então, lutando por liberdade, são figuras de retórica constantes de literatura, pena que não haja mais quem leia.

Atualmente se tem morrido muito em função da violência; ignorância; velocidade; drogas, alcoolismo e doenças tão modernas, quanto a modernidade. Alegria é muito encontrada nas mesas dos bares que são ocupadas por pessoas vazias e copos cheios. Justamente por tal paradoxo, surge a violência que é filha da ignorância, acelerada pela velocidade de quem vive parado na evolução; usando drogas por se identificar na semelhança; consumindo álcool porque o motor psíquico e pouco lógico precisa de combustível. Essa gente acaba doente por viver um presente que não deixa passado e automaticamente não constrói futuro.

 

Continua Cecília:

- Diz-se que o homem nasceu livre, que a liberdade de cada um acaba onde começa a liberdade de outrem; que onde não há liberdade não há pátria; que a morte é preferível à falta de liberdade; e renunciar à liberdade é renunciar à própria condição humana. Liberdade é o maior bem do mundo; que liberdade é o oposto à fatalidade e à escravidão.

Contestei:

- Sejamos realistas, as pessoas nascem pregadas umas às outras. Em princípio às mães. Depois se pregam uns aos outros por posse, sem afeto e pura carência. Assim acabam com a liberdade do outro, mas não querem acabar com a própria. Como todos se sentem presos por amor, ou pela falta dele, também não amam a pátria, até isso..., desconhecem.

Presos à tristeza e angústia morrem por falta de liberdade existencial, não vivencial. Renunciando a ela, renunciaram à própria condição humana. Entretanto, concordo com você Cecilia, quando diz: "a liberdade é o maior bem do mundo", mas, fatalidade hoje, tem outros motivos e escravidão ainda existe, só que de maneira velada, para todas as raças.

Cecília, nos primórdios do último século do milênio anterior já colocava em conjugação pretérita que "nossos bisavós gritavam: "Liberdade, Igualdade e Fraternidade"; nossos avós cantaram: "Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil"; nossos pais pediam: "Liberdade, Liberdade, Abre as asas sobre nós", e nós, recordamos todos os dias que o sol da liberdade em raios fúlgidos, brilhou no céu da pátria" em certo instante.

Senti-me na obrigação de, ainda nesse primeiro século, introito do novo milênio, gritar que..., as pessoas de hoje, não fazem a menor ideia do que seja um bisavô.

 

Como a liberdade é algo desconhecido, igualdade só é experimentada na tipicidade da roupa vestida. Fraternidade desapareceu afundada no mesmo mar de lama em que se afogou a liberdade.

Sobre nossas cabeças se abrem as asas negras de uma prisão ignórica existencial. O céu de uma pátria sem brilho, está sempre nublado. O sol do conhecimento em raios fúlgidos teima em brilhar entre frestas, mas, se apaga nos mata-juntas de um prospecto e nefasto amanhã.

Creio Cecília, do fundo de meu coração que ainda haja esperança, que haja alguma saída, só que está difícil ser encontrada.

Cecília, sempre esclarecida me conforta:

- "Somos criaturas nutridas de liberdade, há muito tempo, com disposição de cantá-la, amá-la, combater e certamente morrer por ela".

Em reposta a tão bela colocação, afino com ela meu diapasão. Na mesma nota, no mesmo tom, exalto meu cântico. Amo a liberdade, amo-a perdidamente e a canto em meus poemas. Combato sempre a mediocridade e fiz desse, meu mote de vida, não de morte.

Cecília me estimula em mais uma observação:

- "Ser livre é ir mais além; buscar outro espaço, outras dimensões, é ampliar a órbita da vida. É não estar acorrentado. É não viver obrigatoriamente entre quatro paredes".

E novamente com ela entoo:

- Sou livre sim. Sempre vou além do que os outros pensam. Ocupo todos os espaços e quando são pequenos, conquisto maiores. De há muito coloquei minha consciência em outra dimensão. Minha vida espiritual não tem órbita, segue em frente direcionada à luz. Muito cedo rompi minhas amarras, quebrei correntes que me prendiam.

 

Habito meu corpo. Trabalho e descanso entre quatro paredes. Sou livre no universo conhecido e pesquisador daquele que desconheço.

Cecília me recorda:

- "[...], os loucos que sonharam sair de pavilhões usando a fórmula do incêndio para chegar à liberdade, morreram queimados, com o mapa da liberdade nas mãos!"

São essas coisas tristes que contornam sombriamente aquele sentimento luminoso da liberdade. Para alcançá-la estamos todos os dias expostos à morte. Os tímidos preferem ficar onde estão, preferem mesmo prender melhor..., as correntes e não pensar em assunto tão ingrato.

Tive condições de ponderar:

- Sou um saudável louco. Nos pavilhões que trabalho os incendeio com ideias. Nos que repouso, me sinto em liberdade. Jamais morrerei queimado nos incêndios que causo ou me perderei em mapas, pois, conheço os caminhos. A sobriedade que me traz o sentimento luminoso da liberdade, me leva à Alegria. Não me exponho à morte, como os tímidos que por medo da liberdade, isso fazem.

E Cecília, me enaltece. (Ao menos no que ela escreveu, sem pretensões, assim entendi):

- "Sonhadores vão à frente morrendo nos incêndios como os loucos, cantando aqueles hinos que falam de asas..., raios fúlgidos, linguagem de..., antepassados, estranha linguagem humana nestes andaimes dos construtores de Babel".

Senti o clarear de felicidade, sentimento de liberdade como nunca antes havia vislumbrado. Sim assumo, sou sonhador. Seguirei à frente.

 

 

Não morrerei queimado, darei sequência a meus incêndios, como um louco. Continuarei a cantar meus hinos, principalmente o que versa, "Se a Pátria querida for envolvida pelo perigo...," e a esse perigo específico, identifico, como a ignorância, maior ameaça à vida; digo sobre isso quê..., "Na paz ou na guerra, defendo a terra contra o inimigo". Que concomitantemente a isso mantenho abertas minhas asas para voos inimagináveis por pessoas comuns. Que como um descendente de 'Mercúrio', os raios de sol são para mim estradas e nunca fulgidios. No entanto, sei que minha linguagem contemporânea simples para antepassados, transforma-se, a cada instante moderno, numa estranha linguagem humana, pois, enquanto admiro babilônicos jardins espirituais, materialistas continuam construindo vanguardistas torres, de uma babel incompreensível.

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