Pedreirando (fuga dos índios)

 

 

(*) SAMUEL BARRETO

 

 

Verde, verde era a mata,

A água da cor de barro

Verde, verde era o índio,

Tantos índios verdes

Em tantas choupanas

Em tantos morros

Em tantas pedras...

 

Um canto dolente da grauna

A flecha de defesa

Não pode conter a fúria

Dali cuspiam fogo em Brasa

O ferro forte da crueldade

Corta sem piedade...

A fuga é o caminho do rio,

Rio acima vamos embora

Levando um canto de dor.

 

Ergueu uma tenda,

Bebeu o nosso sangue

Se fez dono da terra,

Os irmãos deram suporte

Por pouco ou quase nada

Rio acima fazendo trilhas

Em busca de tranquilidade

O rio indo para o oceano

A água sempre desce

Para os braços do mar!

 

Depois do morro, grande morro,

Banhei no néctar dos flores

Passei nas costas da esperança,

Futuro arraial do Alto do boi,

Até avistar o Mearim do Palmeiral, 

Fui firme, pintando a cara

Com a tinta avermelhada do urucum,

Descansando nas boas sombras

Dos trapias e das ingazeiras,

Avançando o destino incerto

Para uma fuga do nunca mais.

 

Samuel Barrêto

A força da flecha

Zombou da alegria

O tempo se fecha

Na dor da agonia.

 

Guerreiro chorou

Com a alma ferida,

A luz se fez cor

Vencendo a partida.

 

Desceu pelo rio

Uma água sagrada,

E um índio é rio

Nas curvas do nada.

 

Quem foi e não veio

Deixou a lembrança,

Vagueia no seio

Da luz de esperança.

 

Os gritos ouvidos

Acordam o além,

São dores, gemidos,

Dos braços de alguém.

 

É uma fria saudade

De canto dolente,

Travou uma idade

Da voz do valente.

 

E agora que clama

Nas noites de lua,

Seu canto reclama

A mágoa tão crua.

 

Guerreiro que grita

Querendo paixão,

Numa taba restrita

É a luz do clarão.

 

Samuel Barrêto.

Vagando

 

 

(*) SAMUEL BARRETO

 

 

Meu Deus é Tupã

Guardando a selva,

A lua é uma irmã

No leito da relva.

 

Nos braços da noite

Ouvi gritos fortes,

Tambores de açoite

Guerreiros do norte.

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