Tereza Braúna Moreira Lima lança

significativa obra poética, com presença de membros da Escola Brasileira de Psicanálise

PRENHEZ DE AFETO E GOZO
(*) Mhario Lincoln

Logo às primeiras páginas de “Psicanálise e artifício poético”, da maravilhosa Tereza Braúna Moreira Lima, tornou-me enfático ratificar que a psicanálise também depende desse artifício poético para falar do inenarrável. 
Por essa razão, acredito ser a poesia ou mesmo a música ou mesmo uma tela artística ou mesmo uma interpretação de dança ou teatro, capaz de provocar uma comoção extraordinária no eu mais profundo, como bem nos ensina Mário Quintana, in “Caderno H”:
“E eis que, tendo Deus descansado no sétimo dia, os poetas continuaram a obra da Criação (...)”.
Ah! Que belo ‘insight’!
Mais belo ainda se costurado às palavras de João Cabral de Melo Neto: “Eu, para escrever, preciso ver muito o que estou escrevendo... O poema, para mim, é como se eu pintasse um quadro. Preciso ver como é que está ficando a forma dele.”
É o olhar poético sustentando a forma. Então, também me ascenderam felicidades o diagnóstico traçativo das impecáveis linhas de Regina Borba, seguindo a máxima de Picasso: “Os bons artistas transformam um borrão em um sol deslumbrante; os normais, um sol deslumbrante em um borrão amarelo”. Borba transformou sua estética colorida numa liga lírica, acompanhando a harmonia buliçosa dos versos de Tereza Braúna:
“Pauta de traçados
Brocados de afetos
Ranhuras da alma

Insígnias de um rastro
Que faz enigma
Palavras (...) bocado de vida”.

Bom, nem precisa falar que a obra de Tereza – a partir desse pequeno exemplo - tem como base os princípios de Jacques-Marie Émile Lacan, na discussão milenar entre o afeto, como energia psíquica ou como linguagem. É interessante, também, quando inserimos Freud na discussão. 
Logo se nota que Lacan vem na contramão das ideias freudianas ao ver o afeto como concepção quantitativa, donde deriva a discursividade e qualidade. 
Mas Lacan, esse imprescindível psicanalista francês, (bom ou mal) sempre apontou – esse afeto - para o predomínio de hipóteses ligadas ao campo da linguagem, em detrimento de explicações biológicas. Ou seja, lendo Tereza Braúna Moreira Lima, vi-me diante desse fenômeno lacaniano em inúmeras formas de linguagem, introjetadas nas criações líricas, em seu belo livro.

“Amanheci nutrida
Como o tronco em que os nós,
São eus vividos
Desvencilhados de compromisso
De um dia ruir
Somente o desejo de arborizar
Num trato com a vida,
Se não ao sol, a sós!”

Leio Jacques Lacan em muitos dos poemas erigidos por Tereza Braúna. Afinal, Lacan dizia que "algo no afeto é verdadeiro como um signo, quer dizer, ele é imediatamente compreensível". Isto é, esse afeto é, sem dúvida, e eu acredito nessa semiologia, um acesso direto ao verdadeiro. De certa forma, aqui, um verdadeiro poético, linha muito bem desenvolvida por esta gigante da poesia brasileira, em ”Psicanálise e artifício poético”, editado pela ‘Dupla’.

Contudo, confirma-se nas entrelinhas, que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, como acertava Lacan?

“À cata da síntese
Gotas de afeto
Escorrem em grota profunda

No bojo da manhã
Reflito a vida
Que se estende no beiral do tempo”.

A certeza é de que, ao ler esta obra, finca-me a ideia consciente de que o olhar semiótico ‘sustenta a palavra poética’. A imagem sustenta a linguagem poética. Imagem que recobre e descobre o nada no qual ela flutua. Como se as palavras versificadas de Tereza se debruçassem sobre o seu silêncio interior da imagem. Palavras, às vezes belas, às vezes polemizadas, às vezes sofridas, às vezes angustiadas, muitas das vezes, à procura incessante do tempo infindo, das fontes e de suas raízes. 
Num primeiro olhar, a mim me pareceu algo igual a escoamentos, no desenho poético dos versos:

“Onda insondável
Nas marés do tempo
Em que praia deságuas
O sal esculpido deste olhar?

Estátuas da memória
Perfume da história
Traço divisor
Que orna em hífen meu afeto”.

Então, diante disso, dessa linha clarividente entre o verso de Tereza e a linguagem de Lacan, entre a linguagem psicanalítica de Tereza e o verso de Lacan, há verdades?
Sim! Há, sim, nessa obra, um claro discurso representativo da existência do afeto humano, mesmo que esse afeto visto pela lente psicanalista de Freud, não passe de pura energia psíquica. 
Continuo, eu, acreditando ser esse, uma imensa paixão da alma. Leio isso, vejo isso, sinto isso nessas mais de 120 páginas de puro afeto em “Psicanálise e artifício poético”.

Mas, desculpas, que “artifício poético”, que nada! Há grandiosidade nesta obra, onde o afeto e o gozo quase sempre estão presentes em mais de 800 versos escritos. 
Aí entra uma terceira vertente: afeto e gozo, como geradores do caráter limite e paradoxal da Angústia: ‘ao mesmo tempo em que procede do afeto, ele toca o gozo’, completa Lacan. 
E Tereza responde assim:

“No bojo de tudo há o verme
Que antecipa a putrefação
Na crosta encarnada há o verbo
Que prevê ressurreição

Entre elas o fruto da vida
Se atira ao gozo descabido
E um arrepio cortante
Invade as vísceras”.

Na verdade, este livro torna-se fato histórico, quase original, não fora Clarice Lispector, Fernando Pessoa e Manoel de Barros, este Manoel estupendo, nas palavras de José Castello, 2015 in “Manuel além da razão”: 
‘A poesia de Manoel de Barros é feita de restos, de sobras, de dejectos. Como ele diz em um poema: de “inutensílios”. É uma poesia que se instala nos primórdios, quando as palavras ainda se confundem com as imagens’.

Ao longo de tudo isso que li com entusiasmo, não mais eu presumo. Agora tenho certeza de que ainda posso falar de Afeto e Gozo, sem indulgencias. Porém, tal qual um pequeno verso, escondido lá pela página 50 da obra de Tereza: “A palavra não deu conta (...)”. 
Isso mesmo. Minha fragilidade ortográfica esgota-se, aqui, diante de tanto brilhantismo métrico e milimétrico, diante de um tema dos mais bonitos envolvendo Freud ou revisitando Lacan, como a autora o faz de forma poeticamente exuberante.

Destarte, fica também uma dúvida iminente: 
A partir da leitura desse belo livro, não sei mais se ainda vou encarar as afeições, sempre ‘moderando-as pela razão’, como defende e ensina Tomás de Aquino.
Ora, pois: in dubio pro reo...

São Luís, 29.05.2019
Mhario Lincoln
Presidente da Academia Poética Brasileira

No centro a Psicanalista Heloisa Caldas -Escola Brasileira de Psicanálise RJ, que veio para apresentar o livro. À direita Joselle Couto Coordenadora da Delegação /Ma.  À esquerda, (e abaixo), a aplaudida autora Tereza Braúna Moreira Lima.

A autora Tereza Braúna Moreira Lima autografa o livro “Psicanálise e artifício poético” para Mhario Lincoln. Abaixo, com o marido Carlos e com a filha Raíssa Moreira Lima.

Teresa Martins, Raissa Moreira Lima, Graça Santos, Soraya Gonçalves. Em baixo Claudia Vaz e Guilherme Frota. em grande estilo.

Psicanalista Carmen Damous.

Ex-governadora do Maranhão Roseana Sarney (com a netinha Fernanda).

Psicanalista Anícia Ewerton.

Sede: Curitiba - Paraná

Envie seus trabalhos para mhariolincolnfs@gmail.com