Análise do texto “Coerências das Incoerências I” do escritor,

poeta Olinto Simões
Keila Marta

Pensar que a literatura nasce em terras brasileiras, a luz da escrita de Pero Vaz de Caminha, ao redigir uma carta ao Rei de Portugal, falando das belezas descobertas. Assim, os brasileiros herdam dos lusitanos não só a Língua Portuguesa, imposta tempos depois pelo Marquês de Pombal, mas o jeito de fazer arte literária. Mais do que seguir aos velhos moldes, o povo soube reinventar, e fazer uma escrita diversificada. De Norte a Sul, encontra-se uma língua viva, que se transforma e se ressignifica. Segundo, José Veríssimo (1915, p. 5): 

A nossa literatura colonial manteve aqui tão viva quanto lhe era possível a tradição literária portuguesa. Submissa a esta e repetindo-lhe as manifestações, embora sem nenhuma excelência e antes inferiormente, animou-a todavia desde o princípio o nativo sentimento de apego à terra e afeto às suas cousas. Ainda sem propósito acabaria este sentimento por determinar manifestações literárias que em estilo diverso do da metrópole viessem a exprimir um gênio nacional que paulatinamente se diferençava.Nesse sentido, as obras nacionais permitem conhecer o passado, o jeito de ser de cada época. Com o Machado na mão, pode-se cruzar as Veredas do Sertão, descobrir em rimas a Vida Severina do nordestino, até chegar no tão sonhado mundo urbano, e depois numa trabalheira danada, tentar entender o incompreensível mundo de Clarice Lispector.
Do Arcadismo à contemporaneidade, dos folhetins impressos aos blogs, forma-se gente que sabe brincar com palavras. E numa dessas brincadeiras, torna-se possível um encontro místico entre dois escritores cariocas unidos pelo tempo, pelas artes de versar, escrever e ensinar. Ela, falando de um passado distante, ele, dos tempos de então. Ela, sensível, 154 anos após a Conjuração Mineira, realiza um passeio, que origina o poema Romanceiro da Inconfidência. Ele, 55 anos depois, em meio as reflexões de final de ano, dá vida ao texto intitulado Coerências das Incoerências I. Trata-se de um mágico diálogo entre Olinto Simões e Cecília Meireles.
Inebriado na loucura deste mundo, Simões se pega em “sanidade” e declara “meio alucinado por tudo que é vivido”. A princípio sua confreira, o faz perceber-se “alguém muito próximo dum romanceiro”, ao passo que se distancia do “inconfidente”. Por que essa relação tão paradoxal? Isso vem declarado na última linha do quarto parágrafo, “a falta de liberdade existencial, leva a aceitação da mesmice”.
Ao ler, não precisa muito para perceber a palavra responsável pelo desdobramento do texto. Para alguns, direito de ir e vir, para outros é poder expressar-se, o que todos querem afinal, é “liberdade”. Esse substantivo que surgiu na Grécia como “eleutheria”, cujo significado era liberdade de movimento, o direito do cidadão antigo de andar livremente pela polis. Sinônimo de poder. Com um começo aparentemente tímido, ganha outros ares, agitando a França e o mundo com o lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Deu voz a operários, mulheres, crianças, negros, refugiados, sem tetos, sem-terra e analfabetos. 
De liberdade, também gozam os poetas e ficcionistas, e por meio dela Simões pôde entrar numa leve e coerente contradição com a Meireles ao dizer “isso é coisa do seu tempo, querida amiga”, após ela afirmar, “deve existir nos homens um sentimento profundo que corresponde a essa palavra liberdade”. É possível concordar com os dois, no tempo da Cecília, muitos heróis e mártires se fizeram para se conquistar tal proeza, no tempo de Olinto com tanta liberdade conquistada, poucos sabem o que fazer. 
Todavia, cantar a liberdade não foi somente coisas do tempo “de nossas bisavós”, ou de Evaristo Veiga, poetizar.  Antes de nossos pais vibrarem com o samba enredo “Liberdade, liberdade abre as asas sobre nós”, jovens do mundo todo se uniram por uma ideologia, fazer tudo com o máximo de liberdade.
 Aqui pelo Brasil, o movimento hippie chega em tempos trevágicos da década de 70, anos de apogeu do militarismo, com a circulação de revistas e organização de passeios alternativos. Raul Seixas, testemunha dessa experiência, confessa numa de suas letras “nada me importa/mas tem que ser livre/tenho que ser/tenho que ser livre”. Mais de uma década depois, alimentados pela esperança de liberdade de escolha, políticos, artistas e povo, se unem aos milhões nas ruas e praças para cantar e gritar no mesmo tom “queremos Diretas Já”. 

 Com o passar dos anos, os valores modificam, e nessa perspectiva, do sexto ao décimo parágrafo, Olinto Simões, em diferentes afirmativas, convida o interlocutor a refletir a atualidade, pois esta, encontra-se recheada de liberdade inútil, onde muitos buscam a felicidade na efêmera alegria “encontrada nas mesas de bares”, ou em matar, roubar e simplesmente sentir prazer sem pensar no amanhã. A sociedade anda meio vazia, todos os heróis descritos por Cecília são apenas “figuras de retórica constantes”, de uma literatura que ninguém lê.
Diante do que Simões fala à Cecília no oitavo parágrafo, talvez seja necessário analisar a existência, como propunha Paul-Sartre. Sobretudo procurar enxergar o que está faltando, para poder adicionar a vida, conhecimentos, valores e atitudes que vão melhorar o existir. Levando em conta “que essa liberdade é condicionada, pois é limitada pela sociedade e suas regras, às quais nos devemos submeter”. (MARQUES, 1998, p.79) Mas ao invés disso, as pessoas se angustiam e se afastam do conhecimento, ficando reféns da ignorância, o que Olinto chama de “prisão ignórica”.
De fato, a sociedade pós-moderna, vivencia uma crise gerada pelo imediatismo, pela falta de reflexão, de busca, e a família na maioria das vezes, não exerce o seu verdadeiro papel. No Brasil, o conhecimento tem se apequenado de uma forma perceptível, seja porque muitos não frequentam a escola, ou aqueles que frequentam não estão aprendendo com qualidade. Há sempre um motivo, que tenta impedir a potencialidade do saber. Não dá para fugir, mas concordar com Olinto quando diz,
 O céu de uma pátria sem brilho, está sempre nublado. O sol do conhecimento em raios fúlgidos teima em brilhar entre frestas, mas se apaga nos mata-juntas de um prospecto e nefasto amanhã. Creio Cecília, do fundo de meu coração que ainda haja esperança, que haja alguma saída, só que está difícil ser encontrada.

Depois de atravessar as linhas da materialidade, com vistas para um existencialismo em crise, o autor aponta uma outra, a subjetividade, ao exaltar “amo a liberdade, amo-a perdidamente e a canto em meus poemas”. E se observa a partir daí, uma relação poética-espiritual de Olinto e Cecília. Agora, falam de liberdade para além da forma, como bem explicita, “ser livre é ir mais além; é buscar outro espaço, outras dimensões, é ampliar a órbita da vida”. Em seguida, eis a reafirmação de Olinto, “sou livre. Sempre vou além do que os outros pensam... De há muito coloquei minha consciência em outra dimensão. Minha vida espiritual não tem órbita”.
Implicitamente, o texto Coerência das Incoerências I, permite perceber a transcendência da palavra, e mais adiante compreender a poesia, como combinação da Verdade, do Bem e do Belo como propõe a filosofia de Meishu-Sama. Por isso, em linhas gerais, “o poeta é aquele que consegue dar forma à atmosfera das almas dos homens, das suas vontades e pensamentos, e cristalizá-la no mundo sensível através do “espírito” de seus versos, ou seja, da energia de suas palavras” (TERROR, 2008, p. 31).
Portanto, a crônica de Olinto Simões, se apresenta como uma exímia forma de problematizar a vida à sombra de um ponto de vista poético. Caso seja lida superficialmente, pode apresentar uma certa incoerência, já que foi escrita tantos anos depois da Inconfidência, e nem a Cecília por este mundo, se encontrava mais. Mas, se a leitura for realizada em essência, apreciando a suavidade do desdobramento literário, irmos aos poucos tirando as cortinas da incompreensão, então, perceberemos a diacronia presente na perspectiva da liberdade e sentiremos a harmonia, mesmo em pontos discordantes. 

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Referências
MARQUES, Ilda Helena. Sartre e o existencialismo. Metavóia, São João Del Rei, n. 1, p. 75-80, jul. 1998.

TERROR, Heloisa Helena Guedes. A poesia e o espírito da palavra: reflexões teológicas a partir de Meishu-Sama. São Pulo: Correlatio, n. 14, dez. 2008.

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